Valfrido Silva

debate de idéias, política, economia e cultura regional

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Terra Blog

Arquivo de: Maio 2008

29.05.08

Tiro pela culatra

A política está cheia de exemplos de derrapagens que mudaram o curso da história de muitas campanhas eleitorais. Na maioria dos casos os próprios candidatos se encarregaram de pôr tudo a perder, cometendo deslizes verbais imperdoáveis, como, por exemplo, o do presidenciável Ciro Gomes, que, vangloriando-se pela beleza da esposa, a atriz Patrícia Pilar, disse que o principal papel dela como primeira dama do país seria o de dormir com ele. Em outros casos, assessores ou bajuladores são os que se encarregam dessas trapalhadas. No intuito de ganhar espaço junto ao candidato, acabam atropelando o processo, e, em muitos casos, também, contribuindo para inverter a tendência do eleitorado.

Na disputa pela prefeitura de Dourados, em 1976, o candidato Lauro Machado de Souza, apoiado pelo prefeito João da Câmara, tinha tudo para vencer José Elias Moreira, que já havia perdido a eleição anterior para o próprio Totó. Mas, na reta final da campanha, uma série de surpresas acabou com o favoritismo de Lauro e até um juiz eleitoral foi cooptado pela velha e “marvada” UDN, elegendo-se o candidato mais identificado com o regime militar, que governava o país.

Em 1998 o “Titanic” de Pedro Pedrossian teve o casco atingido por um barquinho pilotado por Zeca PT. Pedrossian, do alto de sua soberba, disse que aquele pequeno incidente não o afetaria e que preferiria uma parada para pescar no “Touro Morto” a ancorar no Parque dos Poderes. Nem chegou ao segundo turno, quando Zeca levou o governo na disputa com Ricardo Bacha, o ungido pelo governador de então, Wilson Martins.

Além de Ciro Gomes, Fernando Henrique Cardoso, sociólogo dos mais conceituados, também andou pisando na bola, primeiro, ao disputar a prefeitura de São Paulo, quando, confiante nas pesquisas eleitorais, chegou a posar para fotógrafos na cadeira de prefeito, antes da eleição que perderia para Jânio Quadros, o que deu ao mato-grossense mais famoso da história a chance para mais uma de suas irreverências, ao dedetizar a cadeira de prefeito da prefeitura mais importante do país no dia de sua posse. Depois, na campanha presidencial, querendo fazer média com o afro descendente, FHC, numa de suas frases mais infelizes, disse que se orgulhava de sua descendência, que também “tinha um pezinho na cozinha”. Sem contar o famoso “estupra, mas não mata” de Paulo Maluf, também em campanha presidencial e a tagarelice de Lula, que já não assusta mais o Brasil nem o mundo.

Agora, diante das dúvidas lançadas sobre o atentado sofrido pelo deputado Ari Artuzi, a melhor definição para o caso veio, não por coincidência, daquele que é tido como a maior raposa política do Mato Grosso do Sul, o deputado Londres Machado. Para ele, Artuzi, líder absoluto nas pesquisas de intenção de voto, não teria porque forjar este tipo de situação, pela lógica, artifício usado por quem está atrás em qualquer disputa.

Diante do inusitado da situação, dá para afirmar que Artuzi foi mesmo vítima de alguém que tinha intenção de matá-lo, ou de algum fanático “de mente insana ou espírito demoníaco”, como definiu o presidente do PDT, Sergio Castilho, em sua nota de repúdio ao atentado. Pior, se foi coisa de puxa-saco, que o dito cujo fique ciente que este é o típico caso do tiro que pode sair pela culatra, colocando-se em risco todo o trabalho que Artuzi, com muita determinação, fez até agora para chegar à prefeitura de Dourados.

21.05.08

Crônica de um crime anunciado

“Da forma como vem sendo realizada, a prestação de contas é ilegal e imoral, em um comportamento antidemocrata e antipatriota”. Palavras do juiz José Carlos de Souza, da 18ª. Zona Eleitoral de Dourados e encarregado pela fiscalização da propaganda eleitoral nas próximas eleições, durante entrevista coletiva à imprensa em que prometeu rigor no controle da campanha eleitoral.

“Sanesul entrega projetos do PAC”. Este o título do jornal O PROGRESSO, um dia após o mesmo juiz ter baixado resolução disciplinando a propaganda. A matéria traz um subtítulo dizendo que o “governo estadual deve iniciar licitações em poucos dias, transformando Dourados num canteiro de obras”. E, para ilustrar a matéria, no alto da primeira página, uma baita foto do vice-governador Murilo Zauith, provável pré-candidato de Puccinelli a prefeito, abrindo um largo sorriso. Ao seu lado, o presidente da Sanesul, o seu pupilo José Carlos Barbosa, o mesmo José Carlinhos que o acompanhou nos jantares de proselitismo político ao longo de duas semanas, com gente humilde de bairros como Cachoeirinha, São Braz, Parque das Nações, Jardim Flórida, entre outros.

Não sei se é algum sintoma de velhice precoce (dizem que o Alzheimer provoca esquecimentos), mas, para mim, estive numa cerimônia, não faz muito tempo, ali no Água Boa, a mesma em que Murilo tirou a foto que saiu ontem em O PROGRESSSO, onde o governador André Puccinelli assinou as ordens de sérvios do PAC. Sim, porque o lançamento do PAC em Dourados, com toda pompa e circunstância, já havia ocorrido durante a inauguração das casas do conjunto habitacional Itajú II. Pra quem não se lembra, foi naquele dia memorável em que um camarada lá do Ministério das Cidades massageou o ego dos douradenses, comparando nossa cidade com Paris, por causa do avanço das ciclofaixas. Então, como, só agora, o governo vai lançar licitações? Seria de outro PAC? Melhor pensar que seja. E deve ser mesmo, pois o governador em exercício, deputado Jerson Domingos, fez um suspense danado durante a abertura da 44ª. Expoagro ao dizer que no retorno do exterior o governador André Puccinelli virá a Dourados anunciar um grande pacote de obras. Será que a perimetral Norte estará incluída?

A verdade é que o truque já é manjado. Toda véspera de eleição é a mesma coisa. Desta vez com um agravante, pois como um dos prováveis candidatos é o atual vice-governador, que deveria estar no exercício de suas funções institucionais, com a ausência do titular, Dourados perde a oportunidade ter alguém no comando do Estado, mesmo que por poucos dias, aumentado-se as despesas do erário, já que na primeira viagem do governador Murilo teve que “fugir” do País, para uma viagem até agora não explicada, com recursos públicos, só para não ter que assumir o governo e assim ficar impedido de disputar a prefeitura, por causa da legislação eleitoral.

O crime eleitoral maior? Como se não bastasse tudo isso, o governador André Puccinelli, na contramão das pesquisas nas quais põe tanta fé, anuncia aos quatro ventos que vem aqui eleger o seu candidato a prefeito, qualquer um, menos Ari Artuzi, o deputado com quem embirrou e que lidera a corrida sucessória. Virou milagreiro o doutor André? Com a palavra o juiz José Carlos de Souza.





13.05.08

Com Murilo doente Geraldo pode ser o candidato

Na próxima quinta-feira, dia 15, vence o prazo de vinte dias pactuado para que o vice-governador Murilo Zauith anuncie se é ou não candidato a prefeito de Dourados, com apoio dos partidos da base aliada do governador André Puccinelli, excetuando-se, obviamente, o PDT, do deputado Ari Artuzi, cuja candidatura é dada como irreversível, pelos brizolistas. Como Zauith está anunciando que vai entrar de licença médica a partir de amanhã, coincidentemente no dia em que teria que assumir o governo para a viagem do titular do cargo à Europa e Ásia, tudo indica que Zauith, doente, não poderá se envolver com política e aí estaria aberto o caminho para que o deputado peemedebista Geraldo Resende finalmente possa anunciar sua pré-candidatura, uma vez levado a sério o que foi exaustivamente discutido no gabinete do governador dia 25 último.

 
Com a doença de Zauith, que já teve um piripaque em fevereiro de 2000, quando se preparava para disputar a prefeitura pela primeira vez, interrompe-se a série de lautos jantares no restaurante Casarão, aonde ele vinha fazendo seu proselitismo em cima das ações do governo do Estado, numa última tentativa de fazer decolar sua candidatura. Com esse vácuo o deputado Geraldo Resende deve assumir o leme do barco governista, pois certamente não terá mais paciência para esperar pelo diagnóstico da doença do vice-governador. Geraldo anda animado com os resultados da pesquisa qualitativa mostrada aos aliados pelo governador Puccinelli, onde seu nome aparece como segunda opção de voto entre o eleitorado de Artuzi.

 
Resta saber a gravidade do mal que levou o vice-governador a pedir licença médica, não se descartando a hipótese de, antes mesmo do prazo de vinte dias que ele pediu, seus médicos recomendarem repouso absoluto e ele se decidir por abandonar de vez a idéia, que não lhe é nem ou pouco simpática, de sair, mais uma vez, candidato a prefeito.

Murilo sabe que a disputa é indigesta e que isso pode comprometer todo seu projeto político de chegar ao Senado já em 2010 e talvez isso esteja aumentando seus batimentos cardíacos. A menos que a doença tenha sido provocada por uma indigestão por tanto bobó de galinha comido nos últimos dias com o povo da periferia, no Casarão, aí então ele poderá se reabilitar em tempo de convencer Geraldo Resende a adiar pelo tão esperado anúncio da candidatura aliada.

04.05.08

Esperando Godot

A situação do vice-governador Murilo Zauiht diante do quadro sucessório em Dourados faz lembrar o enredo da peça do francês Samuel Beckett, que deu origem à expressão “esperando Godot”, sempre utilizada para indicar algo impossível, ou uma espera infrutífera. Murilo esperou o tempo todo a sinalização de apoio do governador André Puccinelli à sua candidatura. Depois que isso aconteceu veio o inesperado (para ele) racha na base aliada, sem contar a enorme pedra em seu caminho, mais parecida com uma rocha, chamada Ari Artuzi.


O penúltimo ato desta peça, que, à exemplo da obra de Beckett, também está mais para o teatro do absurdo, foi a tensa reunião de dez dias atrás no gabinete de Puccinelli, em Campo Grande, quando foi esmiuçado o resultado de uma pesquisa que teria custado cem mil reais (quem será que pagou?), cujos resultados apontaram para três nomes com chances reais de ser o futuro prefeito de Dourados, pela ordem: Ari Artuzi, estourado na frente, Murilo Zauith e Geraldo Resende, este, beneficiando-se do fato de que a segunda opção de voto do eleitor de Artuzi é sempre para ele, já que esses mesmos eleitores jamais votariam em Zauith ou em Biasotto.

 
Pois bem. Terminada a reunião, deciciu-se não decidir nada, depois de Puccinelli ter alardeado que não passava daquele fatídico 25 de abril o anúncio do nome de seu candidato a prefeito em Dourados. Saindo de lá, Geraldo Resende correu para se encontrar com Tetila e Biasotto, em busca de uma aliança, esquecendo-se de tudo o que falou deles desde que os abandonou, depois de se eleger deputado estadual no palanque petista de 1998. Murilo, saiu de Campo Grande direto para a festa de inauguração do novo diretório do PDT, em Dourados, onde a cúpula dos trabalhistas históricos lançava a candidatura de Ari Artuzi a prefeito. Marçal Filho, que ao lado de Biasotto, apareceu na tal pesquisa com chance zero de se eleger prefeito, baixou ao hospital com uma moléstia não diagnosticada pelos médicos.

 
Esta semana, o último ato deste teatro do absurdo: o vice-governador Zauith não viaja com Puccinelli aos Estados Unidos, não assume o governo do Estado, como reza a Constituição, e desaparece. E, uma das muitas versões para o caso, já que estamos tratando de teatro dos absurdos, é que Murilo, fazendo-se de desentendido, ao deixar-se flagrar na Assemblélia Legislativa conversando com Londres Machado e Ari Rigo, teria encontrado uma saída honrosa: perdendo o cargo de vice-governador, livra-se de Puccinelli sem com ele precisar brigar, não disputa a eleição para prefeito, pois sabe do risco que corre de perder, e fica livre para começar, já, sua campanha para o senado em 2008.

 
O por quê dessa decisão? Homem culto, Zauith, que já está escaldado, analisando bem o atual quadro sucessório, teria se inspirado exatamente na primeira frase da peça de Beckett, quando, enquanto esperava Godot, numa estrada escura, debaixo de uma árvore Estragon disse a Vladimir: “nada a fazer”.