Valfrido Silva

debate de idéias, política, economia e cultura regional

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Terra Blog

Arquivo de: Agosto 2008

30.08.08

Hora de pensar grande

Com duas semanas, já, de propaganda eleitoral no rádio e na TV o eleitor começa a fazer melhor juízo de seus candidatos a prefeito e certamente que irá contar até dez, até mil, que seja, mas que conte e que ponha na balança as propostas de cada um para não se arrepender lá na frente. Para ajudá-los nessa reflexão, faço aqui um breve retrospecto dos prefeitos que tivemos depois da criação do Mato Grosso do Sul, com o fim da era Totó Câmara (o último dos grandes líderes políticos da grande Dourados com base na terra de Marcelino Pires).

Nesse período Dourados teve sete prefeitos, sendo que dois deles governaram por seis anos, José Elias Moreira Elias (com o mandato prorrogado) e Luiz Antonio Álvares Gonçalves; Braz Melo governou por oito anos, em mandatos alternados e Laerte Tetíla, o único reeleito, também por oito anos, completando-se o quadro com Humberto Teixeira, espremido entre os dois mandatos de Braz e José Cerveira, vice que assumiu quando Zé Elias deixou o cargo em maio de 1982 para disputar o governo do Estado.

Zé Elias foi o prefeito das grandes obras de infra-estrutura, que enterrou quilômetros e mais quilômetros de tubos, com a forte argumentação de que era preferível enterrar tubos a enterrar vidas, numa referência aos efeitos do saneamento básico à saúde da população. Foi também uma liderança política forte, tanto que saiu da prefeitura direto para disputar o governo do Estado, perdendo a eleição apenas em Campo Grande.


Luiz Antônio, com aquela paciência que Deus lhe deu, um gentleman, teve passagem discreta pelo poder, com atuação centrada na educação e limitando-se a cumprir os compromissos assumidos por Zé Elias.

Braz Melo, o que parecia ter mais cacoete para líder, no primeiro mandato, fez mais marketing do que, propriamente, obras. Pintou meio-fios e construiu sete escolas nas quais colocou o nome de CEU, além de asfaltar as linhas de ônibus. No segundo mandato, não disse a que veio e naufragou no ostracismo.

Humberto Teixeira, que jamais havia imaginado um dia na vida ser prefeito, aproveitou-se da lambança entre Braz e Valdenir Machado, em 1992, interrompendo o mandato de deputado para ficar quatro anos na prefeitura construindo casas e as entregando de graças à população (foi aí que Artuzi ganhou a sua). Com isso, conseguiu apenas eleger o filho vereador, na eleição seguinte, e mais tarde uma suplência de deputado, graças ao que, na legislatura passada, ficou mais dois anos na Assembléia Legislativa.

O professor Laerte Tetila está concluindo seu segundo mandato devendo passar à história como um dos prefeitos que mais fizeram por Dourados, em todos os setores. O que mais fez asfalto, casas e o que melhor deu atenção ao social. Isso é fato.

Agora, cabe ao eleitor escolher que modelo de administração Dourados está a merecer: um prefeito visionário, como Zé Elias; trabalhador e marqueteiro, como Braz, humanista e clientelista, como Humberto; centrado e idealista como Tetila ou discreto como Luiz Antonio. Tudo bem que tem gente aí que não se encaixa em nenhum desses perfis, mas é pegar ou largar, entre o sonho da cidade educadora de Biasotto, a cidade dos sonhos de Murilo, cem por cento asfaltada e tudo mais ou a Dourados das picadas e das casas de pau-a-pique como sugere a atual propaganda de Artuzi.

27.08.08

A linguagem cifrada das pesquisas

Tudo começou aqui neste blog, com a história do bolachão de 78 rotações que andava incomodando os ouvidos do governador André Puccinelli antes ainda das convenções que indicariam os candidatos à prefeitura de Dourados. Até então, com a indefinição de Murilo Zauith e as dificuldades naturais de Biasotto por causa do desgaste de oito anos de governo petista, uma música apenas fazia sucesso, principalmente na periferia.

Vieram as convenções. Murilo saiu da toca e Biasotto pôs seu exército vermelho na rua. Foi o suficiente para o som do bolachão ir ficando cada vez mais abafado por outros ritmos, e, mesmo com os donos da velha vitrola trocando de agulha várias vezes, o disco começou também a rodar mais devagar.

Os bolachões deram lugar aos long play, daí a coisa foi para fita k-7, CD, MP3 e outras modernidades tecnológicas. E os jornalistas, impedidos de fazer propaganda de tantas marcas e tantos números em época de campanha eleitoral, começaram e buscar fórmulas de driblar a legislação para manter seus leitores bem informados.

Foi assim que surgiram os minudentes do antenado Luiz Carlos Luciano, no site do Gabi. Como diz mestre Aurélio, minudência é uma observação escrupulosa; um exame atento. Neste caso, exame atento de números de pesquisa que Luizinho divulga de forma cifrada, mesmo que para isso precise recorrer à velha cartilha “caminho suave” para informar que “oito goiabinhas estariam separando as duas primeiras, mas o interessante é que a terceira estaria “assim ó”, coladinha na segundo”. Precisa dizer mais?

Não menos criativo é João Carlos Torraca, o colega que dá brilho à coluna “de olho” do Diário MS. O velho Maca se aproveitou dos jogos Olímpicos de Pequim para informar sobre as chances de cada um no pódio da sucessão municipal, dizendo que o resultado computado no final de semana não teria sido muito comemorado pelo pessoal da companhia, apesar de o quadro de medalhas apontar 36 de ouro, 32 de prata e 16 de bronze.

Com tanta sutileza e criatividade os leitores das colunas políticas seguem bem informados sobre as tendências para o 5 de outubro, restando saber, neste exato momento se é o velho bolachão que baixou para 36 rotações, ou se caiu para 32.

Do jeito que as coisas andam, começo a me preparar para agüentar meu amigo Archimedes Ferrinho, que desde o início desta carreira insistia na história do cavalo paraguaio – aquele que só tem largada, e que acaba sempre chegando em último lugar.

24.08.08

Atenção vereador Elias Ishy

 

Como Dourados está entrando para a era sucroalcooleira, achei por bem transcrever o belo texto do colega da Folha de S. Paulo deste domingo, 24 de agosto de triste lembrança para os brasileiros.Um belo texto sobre um assunto delicado, ao qual o vereador Elias Ishy tem dedicado boa parte de seu tempo.

O SUBMUNDO DA CANA
Estado que detém 60% da produção nacional de cana-de-açúcar, São Paulo não divide a riqueza derivada do boom de etanol com seus 135 mil cortadores, que vivem muitas vezes em situações precárias

MÁRIO MAGALHÃES
JOEL SILVA
ENVIADOS ESPECIAIS AO INTERIOR DE SP

Pontualmente às 4h42, a canavieira Ilma Francisca de Souza parte para o trabalho com sua marmita fornida de arroz coberto por uma lingüiça cortadinha. Em outro bairro de Serrana, ainda antes de o sol nascer, Rosimira Lopes sai para o canavial levando arroz com um só acompanhamento: feijão.
Durante o dia, elas vão dar conta da comida, que já terá esfriado. A despeito do notável progresso que ergue usinas de etanol com tecnologia assombrosa, o Brasil segue sem servir refeições quentes aos lavradores da cana-de-açúcar.
A bóia continua fria.
Durante dois meses, a Folha investigou as condições de vida e trabalho dos cortadores de cana no Estado que detém 60% da produção do país que é o principal produtor do planeta.
Gente como Ilma e Rosimira.
Em uma das etapas de apuração da reportagem, por 15 dias percorreram-se 3.810 quilômetros de carro, o equivalente a nove trajetos São Paulo-Rio de Janeiro. 
Pela primeira vez em cinco séculos, desde que as mudas pioneiras foram trazidas pelos portugueses, em 2008 ao menos metade da cana de São Paulo não será colhida por mãos, mas por máquinas. É o que anunciam os usineiros.
Como na virada do século 16 para o 17, quando o país era o líder do fabrico de açúcar, a cana oferece imensas oportunidades ao Brasil, em torno do álcool combustível do qual ela é matéria-prima. O etanol pode se transformar em commodity, com cotação no mercado internacional. As usinas geram energia elétrica.
A riqueza do setor sucroalcooleiro, que movimentará neste ano R$ 40 bilhões, não atingiu os lavradores. Em 1985, um cortador em São Paulo ganhava em média R$ 32,70 por dia (valor atualizado). Em 2007, recebeu R$ 28,90. A remuneração caiu, mas as exigências no trabalho aumentaram. Em 1985, o trabalhador cortava 5 toneladas diárias de cana. Na safra atual, 9,3.
Em 19 cidades do interior -na capital foi ouvido um representante dos empresários- , os repórteres procuraram entender por que, entre nove culturas agrícolas, a da cana reúne os trabalhadores mais jovens.
Exige alto esforço físico uma atividade em que é preciso dar 3.792 golpes com o facão e fazer 3.994 flexões de coluna para colher 11,5 toneladas no dia. Nos últimos anos, mortes de canavieiros foram associadas ao excesso de trabalho.
Conta-se a seguir o caso de um bóia-fria que morreu semanas após colher 16,5 toneladas. Não há paralelo em qualquer região com tamanho rendimento.
Na estrada, flagraram-se ônibus deteriorados, ausência de equipamentos de segurança no campo, moradias sem higiene e pagamento de salário inferior ao mínimo.
Conheceram-se comunidades de canavieiros que dependem do Bolsa Família, migrantes que tentam a sorte e lavradores que querem se livrar do crack e de outras drogas.
Descobriram-se documentos que comprovam a existência de fraudes no peso da cana, lesando os lavradores.

Escravidão
No auge e na decadência do ciclo da cana-de-açúcar, os escravos cuidaram da lavoura e puseram os engenhos para funcionar. A arrancada do etanol brasileiro foi dada por lavradores na maioria negros.
Assim como os escravos sumiram de certa historiografia, os cortadores são uma espécie invisível nas publicações do setor. Exibem-se usinas high-tech, mas oculta-se a mão-de-obra da roça.
Impressiona na viagem ao mundo e ao submundo da cana a semelhança de símbolos da lavoura atual com a era pré-Abolição. O fiscal das usinas é chamado de feitor.
Acumulam-se denúncias de trabalho escravo. É um erro supor que as acusações de degradação passem longe do Estado mais rico do país e se limitem ao "Brasil profundo". Uma delas é narrada adiante. Em São Paulo, localiza-se Ribeirão Preto, centro canavieiro tratado como a nossa "Califórnia".
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem minimizado os relatos sobre trabalho penoso nos canaviais. No ano passado, ele disse que os usineiros "estão virando heróis nacionais e mundiais porque todo mundo está de olho no álcool".
O medo de retaliações é grande entre os canavieiros. Nenhum nome foi mudado nos textos, mas algumas pessoas, a pedido, são identificadas apenas pelo prenome ou nem isso. As entrevistas foram gravadas com consentimento.
São muitos esses anti-heróis: segundo os usineiros, há 335 mil cortadores de cana no Brasil, incluindo os 135 mil de São Paulo. No Estado, prevê-se a extinção do corte manual para 2015, junto com as queimadas que facilitam a colheita.
Ilma e Rosimira compõem uma espécie em extinção. Por meio milênio, os cortadores, escravos ou assalariados, viveram tempos difíceis. Nos próximos anos, não será diferente: com baixa qualificação, eles terão de procurar outros meios de sobrevivência.
Não há sindicato que não constate queda nas contratações.
O canavial não está tão longe quanto parece: ao encher o tanque com 49 litros de álcool, consome-se uma tonelada de cana; quando se adoça com açúcar o café da manhã, milhares de brasileiros já estão na lavoura de facão na mão.


19.08.08

Um dia de frustração

Quando se prepararem para assistir ao programa eleitoral de seus candidatos na TV, hoje ao meio dia ou à noite, os eleitores menos avisados terão uma surpresa. Na hora “h”, em vez das vinhetas, dos jingles e das propostas de governo de Artuzi, Biasotto e Murilo, uma tarja preta na tela da TV Morena com o anúncio de que o horário está reservado à propaganda eleitoral, mas sem nada exibir. Pior, no horário de pico da programação noturna, no meio do Jornal Nacional, a mesma tarja, e, mais tarde, nos intervalos das novelas e filmes, o que se assistirá são os programetes ou as inserções com as propostas do candidato a prefeito de Ponta Porã, Flávio Kayatt. Sim, porque os candidatos a prefeito e a vereadores de Dourados estarão “escondidos” na programação da RIT – a tal Rede Internacional de Televisão – do reverendo RR Soares, cuja audiência costuma ficar, em seu horário “nobre”, ali na faixa dos 2, 3, no máximo 5% e olhe lá!

Isso tudo acontece porque a programação da TV Morena, que detém o monopólio da audiência dos douradenses, é gerada pela TV Ponta Porã e a legislação diz que só os candidatos das cidades onde as emissoras têm sede é que têm esse direito.

Um dia de frustração não só para o eleitor, que, em tese, teria o direito de acesso à informação através de seu principal veículo de comunicação, mas principalmente para todos os envolvidos nos programas eleitorais, que se desdobram em grandes produções para um pífio retorno em termos de audiência. Sem contar o enorme prejuízo daqueles candidatos que têm o que mostrar em seus programas de governo.

E não adianta os funcionários do pastor RR Soares apelar para o bairrismo, enaltecendo o pioneirismo da emissora do meu Jaguapiru. Ela só existe para satisfazer aos interesses do pastor, Brasil afora, embora deva se reconhecer o esforço de alguns baluartes do rádio-jornalismo local, como Fábio Dorta e Luiz Rogério, que insistem em manter vivos os propósitos da emissora fundada por Zé Elias, com o nome de TV Caiuás.

Com a palavra os nossos legisladores e a própria Justiça Eleitoral.





16.08.08

Artuzi mente e faz mentir


Esperei até este segundo debate entre os candidatos a prefeito na rádio Grande FM, na esperança de que o deputado Ari Artuzi tivesse um mínimo de respeito pela opinião pública, pelos veículos de comunicação e por quem o assessora. Como, mais uma vez, ele fugiu do debate, frustrando a expectativa do eleitor, e, principalmente a minha, preciso esclarecer alguns pontos, quem sabe assim os amigos blogueiros possam entender melhor o que aconteceu naquele fatídico domingo, quando me mandaram para o Cachoeirinha enquanto armavam a arapuca que provocaria minha saída da campanha.

Na verdade minha saída não foi porque não gostaram das peças publicitárias que produzi. Elas estavam bonitas, bem conceituadas, atendendo à necessidade do candidato de penetração nas faixas A e B do eleitorado, com um jingle bem povão que está arrebentando na periferia, mas isso são outros quinhentos, coisas que não cabem na cabecinha do deputado candidato a prefeito.

Se não saísse da campanha naquele domingo, certamente sairia na quinta-feira subseqüente, dia do primeiro debate, na Associação Médica ou, no máximo, no sábado do primeiro debate da Grande FM. E por que sairia? Por uma questão de coerência. Porque, como coordenador de comunicação da campanha defendia a participação do candidato nos debates. Porque, também, o próprio Artuzi sempre me dizia que não tinha medo desse tipo de confronto, tanto que anunciou, com sua própria voz, de forma eloqüente, que iria a todos os debates, quando de sua primeira entrevista depois de oficializado candidato, na rádio 101, entrevista esta concedida nos estúdios desta emissora, em Campo Grande.

Portanto, mentiu Ari Artuzi quando disse que iria aos debates. Pior. Fez-me de idiota, induzindo-me a mentir também, pois, terminada a primeira reunião com os coordenadores das demais coligações, na rádio Grande FM, dei entrevista, ao vivo, ao repórter Owaldinho Duarte, confirmando a presença dele em todos os debates.

E que não venha o senhor Artuzi dizer que não foi aos debates porque perdeu o marketeiro. Já deu tempo de arrumar outro.