2
de
fevereiro
O dr. Petiscão no centro do palco
Desencarnado ano passado, o advogado Ayrthon Ferreira Barbosa, um dos pioneiros do Direito em Dourados e fundador da OAB local, agora dá nome ao Teatro Municipal, reabrindo a polêmica em torno dos critérios de concessão de honrarias pelos órgãos públicos. O ex-prefeito Braz Melo, um dos responsáveis pela construção daquele monumento à nossa cultura, foi o primeiro a espernear. Não que Dr. Ayrthon não merecesse, mas, segundo Genelhu, o correto seria que seu nome fosse eternizado numa placa em algum estabelecimento jurídico, e ele citou o novo prédio do Fórum cujas obras devem estar começando por estes dias.
Braz tem lá suas razões, mas talvez suas críticas tenham sido conseqüência do festival em que se transformou esse tipo de homenagem, principalmente as que partem lá do Palácio Jaguaribe. Já faz muito tempo que a Câmara Municipal vem concedendo essas honrarias a torto e a direito, principalmente títulos – a granel – de cidadania, a maioria apenas para massagear o ego de amigos, para pagar pequenos favores. Uma boa garibada no carro do vereador, por exemplo, já é motivo para que o chefe da oficina vire cidadão douradense, da mesma forma o dono da pizzaria que não economiza parmesão nem serve cerveja quente quando das esticadas de suas excelências para os rega-bofes nos quais as diferenças em plenário são mais facilmente amainadas. São situações tão esdrúxulas que chegam até causar constrangimento aos homenageados, uns por não se sentir merecedores, outros, exatamente pelo entendimento de que elas foram por demais vulgarizadas.
O próprio Braz Melo foi vítima de um desses escorregões protocolares do legislativo municipal, alegando um motivo qualquer, mas, se bem o conheço, não indo lá pegar o seu registro de cidadão douradense para não ter que dividir o palco com um monte de desconhecidos, entre os quais, com certeza, alguns desses que nem sabiam por que estavam sendo homenageados. Outra vítima do mesmo tipo de saia justa foi o ex-governador Pedro Pedrossian, merecedor de pelo menos uma semana de homenagens, só pra ele, por tudo que fez não só por Dourados, como para os dois Mato Grossos, mas, num raro momento de humildade não quis frustrar seu pupilo Raufi Marques, dividindo os holofotes com uma turma grande, talvez, até, pela plena consciência de que o brilho de sua estrela política não se ofusca assim por pouca coisa.
Por toda essa falta de critério e de discernimento os vereadores douradenses chegaram a pagar micos históricos, como o de conceder e depois ter que cassar o título de cidadão douradense ao rei Pelé, o cidadão do mundo que nunca encontrou espaço em sua agenda para um pulinho até a terra de Marcelino Pires. Mais recentemente, uma velada recusa à outorga de um título de cidadania causou muito constrangimento àquela Casa de Leis, mais até pela irreverência do ilustre homenageado e pelo ibope negativo que isso causou. Antonio Tonanni – e só podia ser ele! – empurrou com a barriga o quanto pode os nobres edis, alegando ser douradense por opção, não por imposição de lei, só adentrando ao plenário depois de morto, para, aí, sim, receber todas as honras que tanto fez por merecer.
Teatro Ayrthon Ferreira Barbosa? Pena que a lei não permita homenagear pessoas vivas, pois ninguém mais que nossa genial Blanche Torres para merecer ter o nome eternizado neste que é o seu espaço, nesta que é a sua casa, ela que tanto orgulho deu a Dourados e ao Mato Grosso do Sul brilhando nos palcos do teatro brasileiro e que deveria por lá ter ficado, mas preferiu voltar à sua terra, e para fazer o quê? Para ensinar teatro às nossas crianças!
Teatro Ayrthon Ferreira Barbosa? Sim, Braz Melo, uma merecida homenagem no apagar das luzes de um governo de intelectuais, senão pelo grande ator que Dr. Ayrthon foi no palco Tribunal do Júri, pelas grandes encenações como jornalista e principalmente pela humildade e pelo idealismo que o levava a encarnar vários personagens, como o charadista Amadeu Leite Furtado, para falar das mazelas da sociedade ou o idealista nacionalista Policarpo Quaresma, emprestado da obra de Lima Barreto para alfinetar o regime militar em tempos de censura brava que o transformava de vez em quando no “Tiririca”, este, para espinafrar técnicos e juízes do esporte bretão, como gostava de escrever, mas nenhum comparável ao “Dr. Petiscão” que o eternizou no mundo da crônica literária e que agora o faz voltar ao centro do palco. E que isso sirva de lição aos vereadores entrantes, como diria o próprio Dr. Ayrthon, seja lá o pseudônimo que estivesse usando.

