Valfrido Silva

debate de idéias, política, economia e cultura regional

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Terra Blog

17.07.08

O Titanic e o ajuda eu como S.O.S

Tempos atrás só visitava o bairro Cachoeirinha em vésperas de eleições para, como jornalista, acompanhar o espetáculo degradante da compra de votos. Mais recentemente vou até lá de vez em quando para compartilhar a boa prosa do bar do Paulo, em companhia dos amigos Cesar Lutti, Afeif Hajj, João Botega e do Itamar, neto do nosso lendário Laquicho. Neste último domingo fui mandado pra lá às pressas, no meio da tarde, numa esquisita missão política. Lá chegando, não encontrando quem deveria encontrar, comecei a zanzar pra lá e pra cá, na tentativa de entender o porquê de tanta indiferença do poder público para com aquela gente tão sofrida.

De repente, uma melodia, saída de uma caixa de som desses carrinhos populares, invade as ruas poeirentas e vai se misturando aos vários sons de radinhos de pilhas de trabalhadores que se enfileiram sentados em suas cadeiras de fios no único dia que lhes resta de descanso. O som daquela melodia mais parecendo um lamento ou pedido de socorro, com o refrão “ajuda eu, ajuda eu, ajuda eu”, parece encomendado por aquela gente que insiste em desafiar a insensibilidade do poder público que sequer consegue encontrar alguma química para tornar menos fedorento o que sobra da fartura da cidade, que para lá corre exala pelo suspiro da estação de tratamento de esgoto ali ao lado.

Depois de mais de duas horas de inútil espera, já meio grogue com aquele mau cheiro, mas ainda extasiado com os efeitos da tal musiquinha, principalmente entre as crianças e adolescentes do bairro, depois da também inútil tentativa de entender o que queria me transmitir um grupo de sete surdos mudos e de um papo pra lá de animado com um bêbado todo esfolado no rosto e com forte cheiro de urina, eis que um telefonema me traz de volta à realidade. Chispo para o centro da cidade, com o coração acelerado, com o pressentimento de que a orientação para ali permanecer não passara de um despiste. Quanto mais me aproximava do centro, outro cheiro invadia minhas narinas, um cheiro forte de conspiração. Ao subir a rua do hospital Santa Rita, na dúvida entre uma paradinha para aferir a pressão e seguir para casa, onde minha Anita me aguardava uma aguinha com açúcar, vejo uma movimentação esquisita no local onde até alguns dias tremulava fulgurante e fagueira a bandeira do glorioso partido de inspiração varguista. Resolvo entrar. Não acredito no que vejo. Sou acometido por um mal súbito. Sinto uma terrível dor nas costas, como se um punhal perfurasse meus pulmões. Escurecem-se as vistas. Perco a razão.

Ao acordar do pesadelo, já na segunda-feira, a música que toca na minha cabeça é a de um violino, tão suave como aquela que serviu de bálsamo para os náufragos do Titanic que relutavam em se jogar ao mar, depois do choque com o iceberg. A imagem que permanece em minha mente é esta, a do Titanic rachado, afundando, com muita gente tentando se segurar, mas sabendo que o inevitável está ali, no fundo do mar gelado.


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